domingo, 24 de fevereiro de 2008

Espécie de democracia-III

Em Portugal cada vez mais uns podem dizer e os outros não. Cada vez mais uns fazem e os outros pedem licença. Cada vez mais o poder ameaça e quem não é poder, pelo menos, disfarça.
São impressionantes as campanhas que se fazem em Portugal. Para dar só um exemplo dos "ambientes" que se criam, recorde-se o que se escreveu e se disse sobre a gestão da Universidade Moderna: já ia em carne branca, lavagem de capitais, tráfico de droga e de armas. Depois não foi nada disso. Os nomes de Paulo Portas, muito, e o meu , pouco (ainda por cima só tinha entrado um mês antes de rebentar o escândalo), lá apareceram em destaque. Um Director de jornal semanário chegou a escrever que os dois éramos os representantes de uma rede europeia desse tipo de actividades. Lembro-me que falei na mesma manhã para a então Direcção da Polícia Judiciária, perguntando se não me interrogavam. Há anos que é assim: de cada vez que algumas pessoas levantam a cabeça ou a põem de fora, lá vem o tiroteio.
Não sei se não querem fazer um decreto - lei impedindo aqueles que detestam de ter intervenção política. Estará mais de acordo com o tipo de regime para que vamos caminhando. Um regime cheio de juízes que não o são, cheio de avaliadores sem formação ou sem autoridade. cheio de pregadores sem moral.
Aliás, o sistema decreta os seus excomungados. Ainda ontem lia num jornal um conjunto de individualidades a garantirem que davam grandes classificações a José Sócrates só por se lembrarem de Durão Barroso ou de mim. Mas quem são vários deles? Quem representam? O que já fizeram pelos outros?
Depois, cada vez mais também julgam situações e pedem responsabilidades. Eles, que poucas ou nenhumas tiveram, a não ser cuidarem de si próprios. Escrevem pedindo consequências das histórias que inventam, manipulam ou adulteram. Para tapar outras ou para conseguirem dar de beber às suas raivas. Pedem inquéritos, resultados, acusações. Depois estranham quando vêm ganhar eleições nacionais ou nos partidos aqueles que queriam afastar. E resmungam quando a Justiça verdadeira não acusa os envolvidos nos processos que eles criam pelos seus ódios. Pensam que ninguém percebe as sequências temporais, que ninguém tem memória dos seus trajectos, que ninguém sabe dos seus laços de afecto de grupo, de agência, de tertúlia. Falam de incompatibilidades mas esquecem o que se passa por perto. Fazem análises mas esquecem pareceres. Disfarçam factos mas às vezes, acabam por ter de responder à realidade. São assim os que querem mandar, e têm mandado, nesta espécie de democracia.

7 comentários:

Miguel Vaz Serra disse...

Dr.Santana Lopes
O Senhor tem lido como eu os comentários que todos nós fazemos sobre o que escreve.No que se passa nos média só há uma explicação,e eu falo de barriga cheia porque não sou PSD nem nunca votei no seu partido ( confesso que votei na sua pessoa para CML mas isso foi uma opção singular )a explicação é que em Portugal, ser de esquerda era moda,era "bem" e até o nosso Presidente da C. Europeia andava de cabelos pelos ombros a gritar MRPP.
Pois toda essa gente meteu-se nos média e criaram um lobi que só mesmo o lobi PS consegue ser mais forte.E digo-lhe uma coisa.Vão ser necessárias gerações para mudar isso........infelizmente.
Miguel Vaz Serra

Anónimo disse...

Caro Dr. Pedro Santana Lopes,

Se bem se recorda depois de muitas questões lidas num texo anerior, terminava com uma pergunta que parecia sem nexo, perguntava o que era a Democracia?

Espero que quer o Dr. Santana Lopes quer outros leitores me perdoem a franqueza, mas não o que vou transcrever, pios é o modo como eu vejo a actualidade e que se adequa perfeitamente ao momento pelo qual estamos a passar.

Professor Doutor Marcello Caetano em "As minhas memórias de Salazar"
Passo a transcrever na integra continuando sem saber o que é a Democracia:
"Desculpem-me o leitor mas não resisto a uma comparação entre factos ocorridos sob o regime "opressivo salazarista" e o dito "das mais amplas liberdades". M.C.

" A faculdade de Direito de Lisboa, a cujo corpo docente pertenci durante 41 anos, foi fundada por Afonso Costa, o estadista que nos primeiros anos da República em Portugal concitou contra ele, pelos seus actos e atitudes, ferocíssimos ódio dos adversários e até de correligionários. Durante muitos anos não se podia falar no seu nome diante de um católico sem ouvir a mais crua manifestação de repugnância e reprovação: ele era a própria encarnação de Belzebu...

Quando a Faculdade de Direito foi instalada no magnifico edifício construído pelo Governo de Salazar, a congregação dos professores resolveu pedir ao Ministro da Educação Nacional que mandasse pintar os retratos dos antigos directores para figurarem numa galeria de honra. O Ministro deferiu e os retratos começaram a ser executados; mas o de Afonso Costa, que tinha sido o primeiro Director, não aparecia. Soube-se então que havia no Ministério quem fizesse obstrução a que tal personagem aparecesse homenageado num edifício público.

Em reunião do Conselho da Faculdade insurgi-me contra o facto. Defendi a tese de que naquela escola só interessava saber quem a serviu, quem a ela se dedicara e lhe prestara serviços, independentemente do juízo pessoal ou público acerca das opiniões e dos actos políticos de cada um. E propus que, para evitar quaisquer dificuldades oficiais, o retrato de Afonso Costa fosse mandado executar e pago pelos professores que tinham estudado e ensinavam na escola por ele criada. Aprovada a proposta, com voto contrário de apenas três professores que logo se recusaram a contribuir... O retrato, foi inaugurado no melhor lugar da imponente sala do Conselho da faculdade, foi visto, daí por diante, por ministros e autoridades oficiais sem reparo.

Raia a aurora das mais amplas liberdades em 25 de Abril de 1974. Na Primavera reunião após o acontecimento o Conselho da Faculdade aprova por unanimidade, uma moção em que, recordando os serviços prestados durante tantos anos à escola pelo professor que acabava de ser deposto da presidência do Conselho de Ministros, faz, votos por que um dia o veja de novo restituído à Cátedra que honrou: e esse voto foi bastante para que todos quantos nele participaram se vissem privados dos seus lugares, afastados do ensino, "saneados" como se dizia, sem forma de processo." Marcelo Caetano.

Depois deste extenso texto do Professor continuo com a mesma dúvida, o que é a Democracia?

Belmira Martins

Paulo Pereira disse...

pois temos uma espécie de democracia, a democracia dos partidos e dos políticos. para termos a democracia das pessoas era preciso reformular o sistema e isso não é do agrado do sistema.

Anónimo disse...

A ida de Claudia Borges, mulher de Ricado Costa director da SIC Notícias para acessora da Ministra da Saúde é provavelmente uma nomeação de mérito. Até aqui tudo bem. Só estranho que a SIC Notícias, não noticie este facto e mesmo no Jornal da Meia Noite, não tenha feito a análise da capa do 24Horas que trazia a notícia.
Escondendo-a por detrás de outras capas. Fica-lhes mal.
Mais se poderia especular, estaria Ricardo Costa nas melhores condições para entrevista ao PM sabendo que a sua mulher ia para um lugar no estado. É que ele adora fazer retórica moral acerca dos políticos...alguns claro.
Mas enfim deve ser só impressão minha.

Nem mesmo Mário Crespo um jornalista de que eu costumava gostar, deu a notícia no Jornal das 9, Se fosse para mais um "especial casino" estaria de certeza pronto. Começo a pensar que sim.

Claro que tudo isto é só especulação. Só é pena que uns estejam sempre nas notícias, mesmo a ilustrar reportagens em que cirurcicamente são incluídas imagens deles, sem que nada tenham a ver com o conteúdo da putativa notícia. Outros, os que julgam que somos parvos, passam impunes nesta pseudo democracia de folclore.

Os media são bem piores que os políticos. Bem piores. Muito piores. Porque a obrigação de informar deve abranger sem preconceitos todos e não seleccionar alguns para valorizar outros e vice versa.

E assim vai o estado da nação.
O atoleiro já não tarda, infelizmente. Tudo aponta nesse sentido. O pântano pode estar mais perto do que muitos pensam, para desgraça dos que não podem viver à tripa fôrra e não encontram justiça em nada, seja para que lado for que virem os olhos.


Ernesto Sousa.

patm disse...

"...Eles, que poucas ou nenhumas tiveram, a não ser cuidarem de si próprios..."
Dr. Santana Lopes aqui vai mais uma de encontro ao que o Sr. pensa e tem dito sobre esta "nossa" classe jornalística...
A consultar em: http://marsalgado.blogspot.com/2008/02/podem-no-aceitar-encomendas-mas-aceitam.html
ou
http://blasfemias.net/2008/02/28/nao-sabia-e-fiquei-chocado/

Cumprimentos

Anónimo disse...

Dr Santana Lopes
Felicito-o pelo seu escrito.
Penso,também,que é tempo do povo português saber quem são e donde vem esta gente que se intitula jornalista.Era bom que se soubesse de que maneira vivem e como vivem.
Vivem do ordenado mensal?vivem de suplementos do ordenado?vivem por conta de alguém?É incomodativo não se saberem essas coisas porque,aparentemente,eles todos vivem benzinho.
Penso que posso resumir dizendo que ouvi o jornalista Mário Bettencourt Resende dizer ao jornalista Mário Crespo, quando confrontado sobre a dualidade de opinião sobre um mesmo assunto:
"a comunicação social é mais condiscendente com a esquerda"
Ora está tudo dito!
Em Portugal,salvo raras e excepcionais ocasiões,a verdade que vem nos jornais é a verdade da esquerda que,confesso,não sei o que é.
Portanto,quando eles se atiram a si,a experiência dita que a razão está do seu lado.
Aceite os meus melhores cumprimentos
c.monteiro de sousa

Cleopatra disse...

"Fazem análises mas esquecem pareceres"

Ora aqui está o que se tem feito por exemplo com o novo Mapa Judiciário